segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A face da besta

A raiva lhe modificou pouco a pouco, transformando carne
Num emaranhado de espinhos ósseos e escamas vermelhas
A boca já não serve mais para falar, apenas rosnados emergem
Do meio das presas escancaradas e gotejantes de veneno
A cada passo atinge o chão um casco poderoso, fazendo tremer
O mundo ao movimento do monstro que um dia foi homem
Cada partícula de seu ser foi tragada pelo mal e mutilada
Para então renascer no pesadelo que retornou da infância
A respiração faz plantas murcharem, o toque de suas garras
Queima ao arrancar a pele... Seus olhos são bolas de chamas
Trepidando e causando o assombro daqueles que não viverão muito mais...

Oh, sim, a raiva lhe modificou, mergulhou em óleo e o trouxe a tona
Frito, vivo, vingativo e ofegante...
Rasteja nas sombras da alma e salta sobre sua vítima aleatória
Que para ele tem o rosto de quem mais odeia...

É tão difícil expressar sentimentos destrutivos... 
É assim que eles nos consomem!
Com o tempo todos seremos como ele
Pois nós, também, odiamos... E amamos odiar...
E queremos destruir...

Basta um pequeno passo e você está perante a face da besta
Você se sente assustado? Eu me sinto em casa...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Caminhada de um gnomo

Caminhou na floresta, na direção escolhida
Pensou duas vezes pra não errar o caminho
Falou consigo mesmo sobre as coisas da vida
O gnomo no bosque de arbusto-azevinho

Galgou a beirada da rocha elevada
Deu um impulso assim, logo de início
Escalou a colina de pedra empilhada
E viu a beirada do precipício

Andou... Um... Dois... Três passos
Parou de vez, onde a pedra acabava
Se inclinou para poder olhar para baixo: 
Tudo cinza onde a bruma despencava

Num instante de decisão e comedimento
Chegou a cogitar a ida embora
E perguntou a sí mesmo naquele momento:
"Devo eu pular agora?"

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Pensamentos flutuantes

Quero deitar-me na areia do tempo
E ver a bela Lua de nefrite flutuar
Banhar-me em sua luz esverdeada
E adormecer sem mais nada pensar

Sonhar alto nos céus e depois cair
Em nuvens purpúreas acolchoadas
Relembrando o doce canto do dragão
E as lanternas de fogo-cristal penduradas

Retornaria aos campos da plenitude
Cobertos pelo tapete verdejante
Onde os caminhos não têm um fim
E passearia ao lado de um gigante

Buscaria paz onde quer que estivesse
E a celebraria com fogos de artifício
Olharia no fundo, dentro de mim
E veria ali nascer um feitiço

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Razão do alquimista corrompido

Noite após noite seguindo os rastros deixados pelas estrelas.
Mistérios nas velhas páginas e equações infindáveis para enfim saber:
Poderia a alma ser matéria? Posso eu dobrar a morte a meu bel prazer?
Umas gotas de sangue e um cântico sagrado vão me dar todas as respostas!

Quebram-se ovos para fazer a omelete, como as almas que eu sacrifico,
Serei redimido de meus crimes quando chegar a minha conclusão.
Uma obra prima está nascendo aqui, através das almas que eu sacrifico,
E eu rasgarei o meu nome na história, manchando-a para sempre!

Máquinas além da compreensão racional,
Seres que nascem dos restos que deixo...

Minha mente brilhante é assombrada por pesadelos e
Meu tempo se perde por entre corredores escuros.

Jamais voltei a ver a luz do dia, ou sentir a brisa da primavera como antes.
Mas quem precisa disso quando se tem o universo na palma da mão?
Já não estou vivendo nesse mundo, e na minha alma posso sentir...
Só falta um passo certeiro para chegar ao meu objetivo final!

Quebram-se ovos para fazer a omelete, como as almas que eu sacrifico,
Serei redimido de meus crimes quando chegar a minha conclusão.
Uma obra prima está nascendo aqui, através das almas que eu sacrifico,
E eu rasgarei o meu nome na história, manchando-a para sempre!

Mais velho e inquieto, com menos a perder e mais a ganhar,
Meu sangue envenado goteja pela minha garganta ao tossir.

Com asas de vidro vôo até alcançar o ápice da minha loucura,
Uma missão que não dá espaço para descanso ou comedimento.

No fim serei um ilustre governante do que no passado chamou-se magia,
Homúnculos perfeitos e construtos eficientes serão meus súditos.
O pó estelar abrirá as portas da eternidade, e serei eu a guiar o mundo
Para o próximo estágio do meu sonho doentio e insano, chamado EVOLUÇÃO.

Quebram-se ovos para fazer a omelete, como as almas que eu sacrifico,
Serei redimido de meus crimes quando chegar a minha conclusão.
Uma obra prima está nascendo aqui, através das almas que eu sacrifico,
E eu rasgarei o meu nome na história, manchando-a para sempre!

Minha obra vai recriar a história...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Sair para caminhar

- Eu vou sair para caminhar.

- Por que vai caminhar?

- Para entrar em exaustão.

- Por que quer isso?

- Para sentir dor.

- Por que?

- Para que a dor me distraia.

- Por que precisa distrair-se?

- Porque quero me livrar dos pensamentos que me torturam.

- Por que?

- Para evitar que eu fique louco.

- Por que?

- Porque posso me virar contra os que estão a minha volta.

- Por que faria isso?

- Para destrui-los e extravasar o que sinto.

- Por que?

- Porque só assim eu evitaria machucar a mim mesmo.

- Por que se machucaria?

- Para sentir dor.

(...)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Tokusatsu

Que tremor é esse? Oh, não! Olhe para o alto, mais um monstro!
OK, todos sabem o que fazer, né? A postos! Vamos ao robô gigante!

Tecnologia a serviço da justiça, e seremos os protetores da humanidade,
Nossos poderes vêm do outro lado do universo e nosso emblema é inegável.
Cante rápido para afastar o mal, e ataque mais uma vez com sua espada de luz;
Cuidado com a cauda! E os raios que essa coisa dispara de dentro da boca.

Uma formação diferente e nos re-erguemos, e disparamos então a arma final.
Uma explosão, e faremos de tudo pra não destruir mais prédios!
A vilania não descansará, mas até que é divertido estar no meio da ação.
Lá vem o maior de todos, o impacto será sentido por gerações.

A missão é uma só, e embora tudo pareça tão bobo, diga a verdade,
Nós até que somos bem marcantes, não acha?

TOKUSATSU!

sábado, 16 de julho de 2011

Pesadelo de paranóia

Há falhas na parede que eu busco sem parar;
Tateio-a atrás de brechas, relevos ou aberturas
Que a ilusão de ótica me permite ver de canto de olho,
Mas esconde quando viro a cabeça para olhar...

No canto do quarto, alguém me observa das sombras.
Rí de minha incapacidade de desmascará-lo.
Quando ascendo a luz e procuro vê-lo, olho,
Mas lá está um espaço vazio para me confrontar.

Cada som parece ser de passos a meio metro de mim.
Não sou louco por verificar o armário a cada 5 ou 6 min.
É só minha maneira de continuar são e atento as
Forças invisíveis que atentam contra meu bem-estar.

Algo se move logo atrás de mim,
Mas é apenas a minha sombra...
Percebo que alguém revirou meus bolsos
E logo lembro que fui eu a procura das chaves...

Minha casa-base tem olhos pra me vigiar e quer me
Destruir, eu sei disso: Ela me sussurra a toda hora!
E quando durmo lá está a prova dessa conspiração:
Em meus sonhos há sempre alguém me perseguindo!

Inspirado durante uma madrugada paranóica.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Navio e âncora

Agitação em meio ao nevoeiro, e o púdrito odor de peixe no ar.
O sinal é dado e a pesada embarcação deixa o porto empoeirado.
Bêbados e pedintes serão os únicos a vê-lo partir,
Deixando para trás o mundo e aqueles que nele vivem,
Desbravando mares, dando voltas nos mundos,
Causando interesse e espanto em quem o vê de longe.

Partirão para assombrosas aventuras,
Dos contos de além-mar? Com certeza!
Enfrentarão tormentas e a fúria dos seres
Que habitam a profundeza da vida? Sim!
Mas seus nomes jamais serão lembrados
E suas canções só chegarão as gaivotas e sereias.

Uma vida de loucura e algumas garrafas de rum,
Meu mundo por um ancoradouro que seja seguro;
A tempestade me jogo esta noite, desejando ter
Alguém para quem voltar, mas nada há...
A solidão torna o vento do mar mais frio,
E inspira mitos nas almas atormentadas.

E antes que o ano termine... Tesouros!
Belas praias perdidas, intocadas pelo homem...
Vivemos as histórias contadas e não dividimos o segredo;
A não ser que me pague mais uma caneca;
Enquanto o navio não zarpar, e ao som de acordeão,
Tudo parece possível para quem sonha.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Taverna das Brumas do Bosque

Uma colina e uma porção de troncos,
Pra quem logo olha, escondem assim
Um recanto para aqueles que não mais
Na vida dos homens se encontram;

O pequeno guardião mostra o caminho,
Ilumina-o com sua lanterna de fada,
E aponta a porta da jamais lembrada, da
Taverna das Brumas do Bosque;

A porta range e chama a atenção
De pequenos duendes e ogros ranzinzas,
Enquanto os anões acabam com avidez
Com toda cerveja de suas canecas;

Fadas dançam ao som das cordas
Dos bardos de cascos e orelhas pontudas;
E toda magia te envolve aos poucos, na
Taverna das Brumas do Bosque;

Gnomos, trolls e sereias, num misto
De sonho e realidade, medo e alegria;
Dragões, tengus e gigantes, te mostrando
As portas para um mundo mágico;

E ao som de risos e canções de outrora,
O rei elfo adentra a pintura viva dali,
Oferecendo a todos um brinde saudando a
Taverna das Brumas do Bosque.

domingo, 3 de julho de 2011

Sangue de Lobo

Pudera eu partilhar da vida nas estepes
Ou nas montanhas e vale gelados
Onde voam os cisnes e correm os lobos
Onde a alma voa alto para tocar a face dos deuses...

Se em tempos misericordiosos fomos tão fortes
Porque em tempos de lei as correntes pesam tanto?
E nosso próprio coração não mais sentimos pulsar
Presos na inércia daquilo que de nos é esperado...

Mas o que fazer então? Quando um mundo te chama
E o outro te aprisiona? Quando o chão queima
Mas suas asas foram cortadas...

Talvez manter as esperanças acabe por machucar ainda mais

Mas nos somos esse fogo, não podemos fazer mais que esperar

Temos sangue de lobo; Espadas nas mãos;
Vigiamos nos dois mundos um vislumbre de esperança
Corremos no vento; Voamos na luz;
Existimos em cada gota de sangue de lobo...